The unattainable escape
Márcia deu recentemente uma luminosa entrevista onde que dizia que numa das suas músicas novas, havia uma parte:
“Chegas tarde, ligas a televisão, que a vida não se atina sem jornais. Tormentos, maus momentos são pelo menos uns segundos tudo assuntos que não interessam mais.”
Abandono na maoria dos dias a ideia de ler notícias. Parece que o mundo assim pediu. Pintam-se grandes fachadas com notícias vãs, peça sim, peça não. Dissimula-se o real e atraiçoam-se os olhos a quem dá chance. Cria-se uma perturbação, nasce receio e fica apenas a inquietação — quase sempre irrelevante — matérias que não interessam mais.
Na ilha, poucos objetos dão à costa. Auto-Retrato foi um dos casos em que a evasão foi impossível, por um motivo muito claro: este eco vindo de longe, é de alguém que chora. Imagens quase sempre pouco claras, no centro do conflito, a oscilar entre a tortura feita a algumas pessoas e entre inúmeros locais de tumulto. Nesta parada de extremas imagens, surgem sons de cliques de rato e de mensagens, que nos relembram sempre: "Isto não é um filme, é um grito".
O que vimos nunca representará como foi o medo de todos os medos. A nós, não resta espaço algum para conforto. Parece que o mundo fica nos ombros. O que me surpreendente, é que no final, esta voz arruinada, consumida, gasta nos diz que ainda assim existe um pequeno rasto para a esperança.