Aprender a ver

É o terceiro ano que tecemos estrada em quarteto — Maria, Vasco, Roxy e eu, André. É uma grande orquestra para uma caravana, mas cada um toca o seu instrumento. O Vasco guia, eu vejo o caminho, a Maria escolhe a banda sonora, e a Roxy só quer saber de mimos. Todas as viagens começam com um roteiro esboçado, mas há sempre espaço para improvisar. Este Julho quisemos atravessar o vasto Alentejo. Partimos em direção à Ericeira, na primeira noite, para rever amigas. Foi no Parque de Santa Marta que fomos conhecer o Artisan’s Map, o primeiro projeto de mapeamento e documentação cultural de Mafra, cheio de pedaços de histórias de artesãos locais. Perto do mar e da serra, existe um universo por descobrir, de quem faz olaria, encadernação artesanal, patchwork, olaria, latoaria, pintura em aguarela, cestaria, pintura em azulejo, embutidos e marcenaria artística. Quem sabe, um dia, regressar de caravana para descobrir a zona saloia. Ganhámos fôlego perto do mar, e seguimos em direção a Portalegre, a nossa primeira paragem, com um pequeno desvio para uma curta visita a Santo Isidro de Pegões. A aldeia rural, que é grito de modernidade de Eugénio Correia, é-nos familiar, mas é impossível passar por perto e resistir a uma paragem para nos refrescar junto aos pinheiros, junto ao branco caiado, junto às telhas que acompanham a onda e arcos da arquitetura da povoação. O calor pedia passo brando; então parámos a poucos minutos de Portalegre para nos refrescar e passar a noite.

A manhã do dia seguinte foi em visita à Manufatura de Tapeçarias de Portalegre, guiados pelo olhar atento de Fernanda Fortunato, que desde logo ficou impressionada com o comportamento de Roxy. “Onde já se viu um cão apreciar arte?”. Foi com Fernanda que conhecemos o processo de criação de uma tapeçaria mural decorativa. O ponto de partida é, habitualmente, um desenho ou uma pintura original de um artista, que é depois ampliado sobre um papel quadriculado em que cada quadrícula representa um ponto. São trabalhos de artistas como Almada Negreiros, Cruzeiro Seixas, Siza Vieira, Eduardo Nery, Vieira da Silva, entre tantos outros, que são traduzidos pela desenhadora, num processo totalmente manual, que amplia e trabalha o desenho, tendo em conta os contornos, formas e todos os pequenos detalhes do original, e que a tecedeira terá de ler e reproduzir no tear. De entre mais de 7000 cores, é feita a escolha da paleta — que terá de garantir a equivalência entre o original e a tapeçaria. Essa mistura de cores, consegue mostrar transparência, sobreposição e profundidade. Às tantas, durante a visita, Fernanda disse-nos: “Eu estudei pintura, mas não foi para aprender a pintar [pintar eu já sabia]; na escola de pintura ensinaram-me a ver. Eu aprendi a ver”. Depois de passarmos pela parte final do processo nos teares, repeti essa frase durante horas na minha cabeça como um mantra — aprender a ver. Aprender a ver. Aprender a ver. Agarrei na câmara fotográfica que me acompanha desde a faculdade, e pensei que este era o dia em que voltava a ver, a aceitar novamente o meu olhar, lento, contemplativo e a congelar partes do que via. Voltámos para o calor abrasador, e rumámos a Estremoz para almoçar. Mais tarde, já perto do Alqueva, o final de dia foi mais fresco e de céu laranja.

Eram quase 9h da manhã do dia seguinte quando chegámos à Aldeia do Outeiro, perto de Monsaraz. À espera, numa casa com barras azuis, caiada, a “Casa da Lã”, estava Paula e Pedro Neves. Foi uma manhã com eles na oficina, mas podia ter sido um dia inteiro ou uma semana a aprender sobre a lã, como limpar, cramear, fiar, e a falar de tudo [menos da vida dos outros — regra de Paula]. Fascinou-nos o gentil e rápido gesto de, a partir da lã, criar fio. Não nos cansamos de olhar durante horas para as mãos de Paula, e de as ver em movimento, enquanto nos falava sobre como é a sua nova vida na aldeia, e como é o seu trabalho de proteção do especial legado da lã portuguesa. Com uma paragem por S. Pedro do Corval numa tentativa, sem sucesso, de almoçar e chegar à praia fluvial, foi em Serpa que terminamos o dia entre o fresco da piscina e os pavões no Monte das Louzeiras.

Partimos em direção a Mina de São Domingos, com uma pausa na praia fluvial. Com tempo para parar junto aos canaviais, à sombra dos eucaliptos, e um almoço calmo no restaurante “São Domingos”, debaixo do telheiro. A sensação de caiado de fresco que procurávamos nas Minas não estava lá. Esta foi das poucas zonas por onde passámos e sentimos o tempo congelado em décadas passadas, fruto do êxodo rural. Nos edifícios e no passeio pela antiga área mineira havia apenas silêncio. Fizemos de Mértola a paragem seguinte, com olho na Cooperativa Oficina de Tecelagem de Mértola, onde ficámos até ao fechar da oficina, a falar com os membros mais recentes da equipa, e a partilhar histórias enquanto se fiava lã e se observava os bonitos motivos decorativos das mantas que ali são feitas. Uma espécie de santuário para nós, pela memória das técnicas tradicionais de produção, e pela preservação das temáticas decorativas ancestrais das mantas, cobertores e meias. Foi irresistível não subir até ao castelo, cuja vista sobre o rio Guadiana e vento fresco nos deram ânimo para seguir para a próxima paragem. Foi perto de Alcoutim, já ao final do dia, no Monte Vascão, que encontrámos uma parte desconhecida da serra Algarvia. Vazia, cheia de colinas, vegetação rasteira, e uma brisa fresca.

A amplitude dos espaços em Alcoutim foi contrastante com o resto da viagem. Passámos uma boa metade do dia em aventura pela descoberta de artesãos. Depois de alguns “esse senhor já morreu”, “já não há ninguém que faça isso”, “não estou a ver de que fala”, foi durante o almoço que foi feita a ligação com Sónia, que nos recebeu numa antiga escola primária, onde funciona a Associação dos Amigos de Farelos e Clarines, da qual é membro fundador, mostrou os seus ofícios de costura e nos falou da Sra. D. Virgínia Maria da Palma. Sónia disse-nos para seguir a estrada até Clarines, encontrar a única casa com barras vermelhas, uma grande figueira na entrada, e que seria lá que iríamos encontrar uma das mais antigas tecedeiras de Alcoutim. O carmesim a estalar cobria o muro, e as enormes folhas não enganavam. Virgínia recebeu-nos com entusiasmo; abriu a porta da casa mesmo em frente à sua, e destrancou as arcas para nos mostrar o que sempre fez desde os seus catorze anos: trabalhar como tecedeira. Tem noventa e poucos anos, e agora passa o dia apenas a cuidar de si e a “fazer o comer”. O tear agora está desmontado, mas com as suas mãos, desde bem pequenina, teceu tudo o que podia. “O que se pode querer mais da vida?”. No caminho de volta para a serra onde ficámos, fui acompanhado pela sua voz: “que mais se pode querer da vida senão esta entrega?”

A marcha de regresso a Lisboa começa no dia seguinte. Parámos em Viana do Alentejo, no atelier do Sr. Feliciano António Branco Agostinho, onde passámos um bom par de horas a descobrir todos os cantos da oficina, e a admirar as suas bonitas mãos a moldar vermelho; parámos em Évora, no Palácio de Cadaval, para visitar a exposição de cerâmica contemporânea Obrigado à Terra; aparcamos no Vimieiro, para dormir. No meio de uma paisagem intocada, à noite, fora da rede, às escuras, apenas com o céu brilhante como ecrã. E que bom foi contemplar, que bom foi ver. Que bom foi sentir a fragrância do tempo.

Texto originalmente publicado na revista LUX Deco, edição Novembro/Dezembro 2023.

Fotos e palavras minhas.

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